“Por que tanto ÓDIO?”

23 fev

“Rapaz é agredido na Avenida Paulista”[1]

“Bombeiro confessa ter espancado homossexual na Praia Grande”[2]

“Quatro lésbicas são agredidas em lanchonete em Taboão da Serra”[3]

Afinal de contas, qual seria a relação entre as frases citadas acima? Parecem desconexas, sem relação aparente. Entretanto, todas se ligam por convergirem para um mesmo atual e polêmico tema: a HOMOFOBIA! O termo foi citado pela primeira vez no livro do psicólogo norte-americano George Weinberg, em 1971, intitulado “Society and the Healthy Homosexual”.

Mas meu objetivo neste texto não é discutir a origem etimológica da palavra ou qualquer coisa do gênero. A discussão aqui colocada em pauta são os absurdos contra os homossexuais bombardeados pela mídia nos últimos meses.

14 de novembro de 2010, o “palco” que todos os anos recebe a maior manifestação do orgulho gay, a Avenida Paulista – na cidade de São Paulo, virou cenário de um verdadeiro crime que ganhou a imprensa do país inteiro. Às 07 horas do citado dia, um rapaz foi atingido no rosto com duas lâmpadas fluorescentes. Um vigia que presenciou a agressão e ajudou a separar a briga que começou após a vítima reagir, disse em depoimento que a motivação para o crime foi homofobia. “Batemos porque ele é veado.”, disse um dos agressores.

No mesmo dia, após a parada do orgulho gay no Rio de Janeiro, um rapaz foi agredido, ofendido verbalmente e atingido por um tiro de fuzil no abdômen. O autor do disparo? Um militar do exército![4]

E tudo não para por aí. Em janeiro deste ano, um bombeiro confessou ter espancado um homossexual até deixá-lo inconsciente, alegando que ao se conhecerem pela internet este se apresentara como uma mulher. O agredido, no entanto, alegou sempre ter deixado claro que era homossexual.[5] 

Em outro episódio com fortes evidências de motivação homofóbica, este mais recente e mais próximo de minha realidade, duas jovens afirmam ter sido agredidas nas proximidades do anfiteatro da UFRN. De acordo com uma das vítimas, de três a quatros rapazes se aproximaram enquanto ela estava com a namorada e começaram com piadinhas até agredi-la.[6]

De norte a sul do país, muda a ocasião, as pessoas, mas o motivo é sempre o mesmo: não há liberdade para ser diferente! Todas as vezes que isso ocorre me pergunto o que falta para que o Congresso Nacional aprove o PLC 122/06, conhecido como “Não Homofobia!”. O projeto que tramita no Congresso desde 2006 quando foi proposto pela Câmara, pretende alterar a Lei n° 7.716/89 e incluir a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero como crime, colocando-o em patamar igual à da discriminação de raça, cor, sexo, etnia, religião, procedência nacional e gênero.[7]

A principal alegação para a resistência à aprovação seria o fato de que a homofobia já estaria elencada de forma tácita dentro dos crimes descritos pela Lei n° 7.716/89. No entanto, cabe o questionamento: se no Código Penal já existe a punição para lesão corporal e tantos outros tipos de violência, por que existe a Lei Maria da Penha (Lei N° 11.340/06)?

Por outro lado, o projeto de lei é rejeitado pela ala mais conservadora do Congresso e até mesmo da sociedade. Dizem por aí que a lei visa restringir as liberdades religiosa e de expressão. Desde quando agressão verbal contra a opção de sexual de outra pessoa ou até mesmo incitação à violência motivada por preconceito enquadram-se na qualidade de liberdade de expressão? A liberdade não é um direito absoluto, possui limites, e seu limite de dizer o que quiser termina quando isso passar a ofender a dignidade de terceiros.

Acerca desse debate, vale destacar aqui um trecho da entrevista concedida à Revista Época do deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro Jean Wyllys, assumidamente homossexual. Quando questionado pela repórter Ana Aranha sobre sua visão em relação ao projeto de lei que criminaliza a homofobia, ele respondeu da seguinte forma:

“[...] Essa lei não vai proibir ninguém de continuar odiando homossexual, para aqueles que odeiam. Quem quiser que continue alimentando seus ódios, privadamente. É um direito. Agora, publicamente ela não pode impedir um homossexual de acessar um direito e nem de expressar publicamente a sua sexualidade. E quase sempre o homossexual é impedido de acessar um direito e expressar sua homossexualidade de maneira violenta.”[8]

Dispensa qualquer tipo de explicação, o deputado foi categórico!


Travar uma discussão contra a homofobia vai além de uma questão de orientação sexual. O leitor e a leitora que por acaso já sejam pais podem ter em casa um filho, ou filha, homossexual e não saber; e eu pergunto: você gostaria de vê-lo apanhar de graça na rua? Você gostaria de ver seu filho, ou filha, ser atingido por uma lâmpada no rosto e ouvir do agressor “bati porque ele é veado”?


Não sou gay, mas defendo aquilo que tenho como princípios. Desde cedo aprendi que ganhamos o respeito do próximo quando a recíproca é verdadeira. Fazendo minhas as palavras do deputado Jean Wyllys, também acredito que aqueles que odeiam homossexuais tem todo direito de continuar odiando. Portanto, não desejo que meus filhos vivam em um mundo onde o normal é odiar o diferente e bater ou matar alguém “porque ele é veado”.


A frase que dá título ao texto estava estampada em uma das faixas da passeata promovida em São Paulo, na sexta-feira (19 de fevereiro), em protesto contra a homofobia. A pergunta é mais que justa! Alguém saberia respondê-la??


_________________________________________________________

[1]http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2010/11/rapaz-e-agredido-na-avenida-paulista.html

[2]http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,bombeiro-confessa-ter-espancado-homossexual-na-praia-grande,671978,0.htm

[3]http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,quatro-lesbicas-sao-agredidas-em-lanchonete-em-taboao-da-serra,664915,0.htm

[4]http://quintadiversidade.blogspot.com/2010/11/jovem-e-baleado-no-rio-apos-parada-gay.html

[5]http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,bombeiro-confessa-ter-espancado-homossexual-na-praia-grande,671978,0.htm

[6]http://tribunadonorte.com.br/noticia/vitimas-denunciam-no-twitter-agressao-por-homofobia/173563

[7]http://www.naohomofobia.com.br/lei/PROJETO%20DE%20LEI%20plc122-06.pdf

[8] http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI212480-15223,00-A+FRENTE+GAY+NO+PAREDAO+DO+CONGRESSO.html

3 Respostas to ““Por que tanto ÓDIO?””

  1. Leôncio Guimarães fevereiro 24, 2011 at 13:15 #

    Arrebentou Hildérica, é isso mesmo! Pra que tanto ódio? Ontem na aula de filosofia jurídica, o professor falou uma frase muito interessante: “o preconceito é o germe que corrói a lógica.” Acho que essa frase sintetiza tudo, não é? Ela iguala o preconceito à irracionalidade. E é uma pena ter que admitir que vivemos numa sociedade que abdica de sua racionalidade cotidianamente.

    Parabéns pelo texto!

  2. Hermano fevereiro 24, 2011 at 15:15 #

    Apesar de a sociedade vir avançando nesse aspecto, a homofobia ainda é presente nos quatro cantos do mundo. Percebo que a juventude de hoje não absorve com tanta naturalidade a discriminação contra homossexuais, o que me leva a crer que as próximas gerações vão “aceitar” o homossexualismo de maneira mais espontânea. Muitos dizem que não têm preconceitos porque isso virou modinha, mas no fundo ainda há muita homofobia imbutida. De qualquer forma, acho importante as instituições e as leis garantirem a todos o direito de ser quem é, e de ser respeitado por suas escolhas.

  3. Vitor Hugo março 1, 2011 at 0:07 #

    Nós vivemos num sistema cujos defensores se orgulham de ser um sistema que garante as “liberdades individuais”, e esses mesmos defensores muitas vezes são os que mais ferozmente espalham o preconceito contra os homossexuais.

    E o preconceito ainda se mantém forte nessa sociedade, tanto que muitas vezes nós que nos posicionamos contra ele, acabamos sem perceber reproduzindo a homofobia através de expressões e estereótipos, o que também vale pro machismo, o racismo e outras formas de opressão, e por isso, devemos nos “policiar” para que nós mesmos não acabemos reproduzindo a discriminação que está presente na cultura.

    Por fim, aqueles que espalham o ódio através da homofobia sempre aparecem com vários argumentos que muitas vezes acabam sendo bastante convincentes, e é de grande importância estarmos sempre preparados para destruir a argumentação em favor da homofobia, porque o debate é o primeiro passo no combate ao ódio!

    Parabéns mais uma vez pelo artigo, e é sim esse um tema que deve sim ser colocado em questão e levado ao debate, especialmente no direito.

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