O nome disso é SENSACIONALISMO!

12 abr

Desde a manhã da última quinta-feira (7 de abril), o “massacre do Realengo” foi – sem contestação – o assunto mais debatido e comentado pelos veículos de informação (ou não). Não há um só cidadão comum que tenha acesso a qualquer fonte de notícias que não tomou conhecimento e não se comoveu com o assassinato brutal de 12 crianças dentro de salas de aulas de escola pública no subúrbio do Rio de Janeiro.

A mídia brasileira não perdeu tempo! Poucos minutos após a ocorrência do tiroteio, os mais ágeis telejornais já davam em tempo real o passo-a-passo do que ocorria na escola e fora dela. E, em poucas horas, já se corria atrás da “verdade dos fatos”: o que houve, como aconteceu, quantos morreram, quem era o assassino? A razoabilidade do exercício do direito de informar estaria satisfeito aí… mas se tudo parasse por AÍ!

Não que meu manifesto através deste texto seja uma defesa à censura! Não, de forma alguma! Seria uma afronta à todas as vidas perdidas para que a Carta de 88 assegurasse que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;” (art. 5º, IX). Acrescendo-se o fato de que tentar fazer uma apologia à censura tornaria meu texto viciado por contrariar a proposta abraçada pelo Entrelinhas Jurídicas; uma proposta, inclusive, muito bem defendida desde o “nascimento” do blog no texto “LIBERTAS QUÆ SERA TAMEN“.

Se, então, reconheço a legalidade do que faz a mídia, este texto é — e só pode ser — fruto de motivação estritamente passional. Entendo que a sociedade como um todo merece estar informada sobre tudo que acontece, porém chega um ponto que me pergunto se realmente há relevância em determinadas notícias veiculadas em (tele)jornais, revistas, programas de TV e afins. Mas qual seria esse limite? Em que momento certos fatos abandonam o campo da fundamentalidade e passam a ser mero instrumento de sensacionalismo da mídia? Eles desconhecem esses limites ou simplesmente os ignoram em favor da audiência?

Se um caso vem a ganhar destaque na grande mídia, acabou a paz! Não basta que as vítimas e/ou familiares vivam a tragédia no momento do ocorrido. A história é revivida à exaustão na tela da TV, sem contar as dezenas de repórteres que — em demonstração de total falta de respeito aos sentimentos — perseguem os envolvidos em busca daquela entrevista exclusiva que certamente alavancará muitos pontos na audiência… Os jornais tomam para si os fatos e passam a trabalhá-los numa escala descendente que parece não ter fim, a desgraça alheia vira um verdadeiro roteiro de novela: a mídia cria a vítima, o vilão, recrutam coadjuvantes e ainda conseguem figurantes.

Parece-me que nossos jornalistas, há muito, deixaram de “aprender” a imparcialidade. A notícia dos fatos é apresentada em real ignorância ao princípio constitucional da presunção de inocência. Quantos condenados já foram produzidos pelo “tribunal do juri” da mídia? Quem duvidava da condenação do casal Nardoni, após o sensacionalismo que a mídia fez em cima do caso? E quem duvida que no dia que o ex-goleiro Bruno for a julgamento será condenado? Os direitos de terceiros não importam, é preciso “produzir” um bandido porque uma história completa é muito mais atraente para o público.

O maior símbolo disso é, sem sombra de dúvida, a capa da Revista Veja de 23 de abril de 2008 — edição 2057! Para quem não lembra, a citada revista trazia estampada em sua capa uma fotografia focada nos rostos de Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá, até então apenas acusados pela morte da menina Isabella Nardoni (frise-se que o fundo totalmente escuro da imagem deixa entrever apenas o olhar de Alexandre que, de passagem, se torna assustador). E, abaixo da imagem, o escrito em letras garrafais: “FORAM ELES”. O lamentável é que por inocente descuido escreveram em letras bem menores, imediatamente acima da frase anterior: “Para a polícia, não há mais dúvidas sobra a morte de Isabella:”. Descuido? Sim, se você acredita…

É triste ver o caminho que a imprensa televisiva brasileira toma nas últimas décadas. Cadê aquele jornalismo produtivo? É raríssimo! A mídia perdeu seu caráter produtivo, assumindo o patético perfil sensacionalista. E o pior de tudo isso é saber que a história só vai interessar enquanto gerar polêmica e der aundiência; depois de mastigada e vomitada para o público, o caso simplesmente cai no esquecimento. Ou quantos jornais por aí você ainda vê citarem o caso João Hélio, o caso Eloá?

Chega! Eu já cansei, meu senso (que não sei se posso chamá-lo bom) cansou de consumir tragédias agravadas pela mídia! Por acaso o “show da vida” pensa que em alguma coisa vai atenuar o sofrimento das famílias o programa “especialmente” dedicado a desmembrar toda a desgraça da escola do Realengo, principalmente quando não há mais nada a ser desmembrado? De que adianta um especialista em cada programa de TV tentando responder perguntas que morreram com o assassino? E qual é a contribuição dos apresentadores de programas policiais para a sociedade com seus discursos inflamados de que bandido bom é bandido morto? Sim, porque essa categoria de programa e seus apresentadores são os maiores parasitas já criados pelo jornalismo televisivo brasileiro. Quem melhor que eles para se valerem da pior forma possível de casos envolvendo violência?! Quanto mais violência, melhor; assim, seu discurso será mais agressivo, mais atraente porque ele se torna aos olhos do público o “justiceiro” que defende as vítimas da “bandidagem”. E o que me assusta é ver que esse discurso por mais tosco que seja, atrai muita gente, disseminando mais ainda aquela visão arcaica de que o Direito Penal “máximo” é a saída para todos os problemas.

Claro que ninguém é obrigado a corroborar com meu ponto de vista. Isso não passa de um mero desabafo de uma revolta desencadeada por mais não suportar ver o sofrimento alheio utilizado como ferramenta da mídia para elevar pontos no Ibope e revistas serem vendidas às custas do sangue de inocentes.

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