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STF garante a possibilidade de interrupção da gravidez em caso de feto anencéfalo

15 abr

“Pena que a decisão não veio antes. Porém, nenhuma família vai mais precisar sofrer tudo o que eu sofri. Porque o mais difícil é gerar uma criança sabendo que no final ela vai morrer”, Brendha Evellyn Soares de Souza, em entrevista ao Portal G1¹, após dar à luz bebê anencéfalo que “viveu” por 1 minuto.

A expectativa é que histórias como a da jovem mãe do Mato Grosso do Sul, que teve o direito de interromper a gravidez negado pela Justiça, não continuem a se repetir Brasil a fora. Na última quinta-feira, 12 de abril de 2012, por 8 votos a 2, o Supremo Tribunal Federal julgou procedente o pedido formulado na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 54 (ADPF 54) para declarar inconstitucional a interpretação dada aos artigos 124, 126 e 128, incisos I e II do Código Penal que tipifica como aborto a antecipação terapêutica do parto nos casos de anencefalia do feto.

Votaram pela procedência do pedido os ministros Marco Aurélio Mello (relator da ação), Rosa Weber, Joaquim Barbosa, Luiz Fux, Cármem Lúcia, Carlos Ayres Britto, Gilmar Mendes e Celso de Mello. O ministro Ricardo Lewandowski foi o primeiro a abrir divergência no julgamento e votar pela improcedência, pelo que também votou o presidente da Corte Suprema, o ministro Cezar Peluso. O ministro Dias Toffoli se declarou impedido de votar por ter participado do processo ainda como Advogado-Geral da União e ter emitido parecer favorável à procedência da proposta da ADPF 54.

Sob protestos promovidos por organizações de cunho religioso que antecederam e permearam os dois dias do julgamento, o STF escolheu por priorizar a liberdade da gestante de um bebê anencéfalo em dispor sobre o próprio corpo em detrimento de obriga-la a levar a “assistir, durante nove meses, à missa de sétimo dia de um filho acometido de uma doença que o levará à morte, com grave sofrimento físico e moral para a gestante”², como pontuou o ministro Luiz Fux em seu voto.

O relator da ação, o ministro Marco Aurélio Mello, pontuou que o objetivo do crime de aborto é a tutela vida em potencial, o que não vem a ser o caso do anencéfalo, que não se caracteriza como vida viável. Nas palavras de Ayres Britto, a antecipação terapêutica do parto para esses casos “é um direito que tem a mulher de interromper uma gravidez que trai até mesmo a ideia-força que exprime a locução ‘dar à luz’.”, pois “Dar à luz é dar à vida e não dar à morte.”.

Os ministros que se posicionaram favoravelmente ao pedido da ADPF 54, no entanto, fizeram questão de frisar que a decisão não obriga as mulheres grávidas de feto anencefálico a se submeterem à antecipação terapêutica do parto. “Faço questão de frisar que este Supremo Tribunal Federal não está decidindo permitir o aborto. […] Não se cuida aqui de obrigar. Estamos deliberando sobre a possibilidade jurídica de um médico ajudar uma pessoa que esteja grávida de feto anencéfalo de ter a liberdade de seguir o que achar o melhor caminho” – ministra Cármem Lúcia.

USURPAÇÃO DE PODERES X INÉRCIA DO LEGISLATIVO

“Não é lícito ao maior órgão judicante do país envergar as vestes de legislador criando normas legais. […] Não é dado aos integrantes do Poder Judiciário promover inovações no ordenamento normativo como se parlamentares eleitos fossem.”

Ministro Ricardo Lewandowski

A decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal mais uma vez reacendeu a uma polêmica questão sempre lembrada nos debates que envolvem temas de grande repercussão social, questão essa que foi levantada no voto do ministro Ricardo Lewandowski. Questionou-se a legitimidade atribuída ao STF para prolatar decisões que ampliem as possibilidades. “O STF, à semelhança das demais cortes constitucionais, só pode exercer o papel de legislador negativo, cabendo a função de extirpar do ordenamento jurídico as normas incompatíveis com a Constituição.”, afirmou Lewandowski.

Mas o que esperar quando o poder devidamente investido de legitimidade para editar novas leis e alterar as que já existem não exercem as prerrogativas que lhes competem?

O Código Penal como uma lei do ano de 1940 lembra-nos das lacunas que começam a se abrir no texto legal com o passar do tempo e o evoluir das sociedades. Entretanto, um fato é na década de 40 não ter um legislador pleno conhecimento sobre a existência e as consequências da anencefalia; outro, chegarmos ao século XXI sem que essa situação venha a ser alterada no texto legal. Em seu voto, o ministro Luiz Fux destaca que “o sacrifício da penalização de uma gestante de feto anencefálico não se revela necessário aos fins do direito punitivo, mas antes, demonstra a desproporcionalidade da sanção, diante da inafastável defesa da dignidade humana da mulher infortunada, fundamento do Estado Democrático de Direito Brasileiro e garantia revestida da categoria de direito fundamental.”.² Então, por que o legislador insiste em ignorar a supremacia desse princípio e continua elencando no rol de crimes uma prática que tem como única finalidade a  preservação da integridade psíquica e física da mulher?

A decisão da Suprema Corte ganha legitimidade à medida que passa a garantir a efetivação dos preceitos fundamentais de nossa Carta Constitucional, quando os eleitos para o fazerem por meio da edição de leis preferem se omitir a enfrentar o debate extremamente necessário em um Estado Democrático de Direito.

A contrario sensu das opiniões mal fundamentadas, sou a favor da preservação da única vida prejudicada antes da ADFP 54: a vida da mulher, que tendo negado seu direito se via obrigada a se submeter ao que o ministro Luiz Fux equiparou a uma tortura. Isso é sim é grotesco e desumano!

Por fim, para ser lido, absorvido e profundamente refletido, deixo-vos com as sensatas palavras do ministro Carlos Ayres Britto (uma inspiração! ^^):

“O feto anencéfalo é um crisálida que jamais, em tempo algum, chegará ao estágio de borboleta porque não alçará voo jamais. […]Não se pode tipificar esse direito de escolha [da mulher] como caracterizador do aborto proibido pelo Código Penal. […] Levar esse martírio às últimas conseqüências contra a vontade da mulher equivale a tortura, a martírio cruel.[…] É preferível arrancar essa plantinha ainda tenra do chão do útero do que vê-la precipitar no abismo da sepultura.”³

REFERÊNCIAS:

1http://g1.globo.com/mato-grosso/noticia/2012/04/pena-que-decisao-nao-veio-antes-diz-mae-que-deu-luz-anencefalo-em-mt.html;

2http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADPF54LF.pdf – ÍNTEGRA DO VOTO DO MINISTRO LUIZ FUX;

3http://g1.globo.com/brasil/noticia/2012/04/supremo-decide-por-8-2-que-aborto-de-feto-sem-cerebro-nao-e-crime.html ;

4http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=204878.

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Incompetência institucional: TAC da Educação no Leningrado e o descaso da Secretaria Municipal de Educação

28 jan

“O teto, o pão e a liberdade
Não são favores, são direitos”
(Noel Delamare)

Reivindicação do morador do Leningrado em vinda da Prefeita Micarla de Souza para analisar a linha recém-inaugurada do Circular que liga Guarapes ao Leningrado, que há oito anos vem sendo pleiteado pelos moradores.

O Conjunto Habitacional Leningrado não surgiu de mãos cruzadas. Na Semana Santa de 2004 as famílias se organizaram no assentamento que, após briga judicial acerca da titularidade do terreno, em 2006 viu erguerem-se as primeiras casas populares que se tornaram a moradia deste povo que, ainda hoje, afirma que o Conjunto é “um depósito de gente”.

Esta afirmação, repetida por várias vozes em incontáveis vezes (que não tiveram vez e voz, frise-se), decorre da compreensão de que não basta ter a casa, é preciso todos os equipamentos urbanos públicos que conferem infra-estrutura e dignidade a seus moradores. Por óbvio, não é possível suscitar uma vivência familiar e comunitária saudável sem a presença de mecanismos de efetivação de transporte, saúde, educação, lazer, cultura e segurança.

Cada um destes direitos, elencados na Constituição Federal, merece um texto a parte quando se trata do Leningrado, conjunto habitacional em que aproximadamente 500 famílias vivenciaram o processo de desfavelização incompleta no seio norte-riograndense, saindo de favelas, ocupações e assentamentos para as casas que vieram em parceria do Município com o Governo Federal.

São a versão potiguar dos ninguéns de Eduardo Galeano: estatísticas humanas, mãos sem rostos que valem menos que a bala que os mata. Para a Prefeitura, claro. Porém, cada morador tem um relato único de ausência e negação de cuja riqueza não se pode olvidar. Apenas quem sente na pele o preconceito e as violações aos seus direitos sabe como é difícil erguer a cabeça no outro dia. E hoje nova violência acometeu o Leningrado. Esta, mais uma vez, de incompetência institucional.

Em 2011 restou firmado um TAC – Termo de Ajustamento de Conduta – em que a Secretaria de Educação encarregou-se de promover um levantamento no conjunto para aferir a quantidade de crianças sem escola, bem como as matriculadas e a localização das escolas, com o escopo de obter ônibus escolar para transportar as crianças.
Ressalte-se que, atualmente, muitas crianças não estão estudando. E a razão é simples. Seus pais têm medo. Receio fundado nas experiências que vivenciaram e nos relatos de seus vizinhos.
Explico: o caminho que fazem consiste em uma subida nos morros que ligam a região ao Bairro Guarapes, no meio de uma vegetação em que, não apenas uma vez, assaltantes e estupradores violentaram pais e filhos em suas travessias.
Além disto, muitos estudantes matricularam-se em escolas longe de suas casas – devido à falta de vagas nas proximidades – e não têm dinheiro para custear diariamente o transporte.
Isto, por si só, representa violação ao ECA, que em seu art. 53 garante o acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência. Viola, ainda, o art. 54, cujo inciso VI assegura o transporte para as crianças, sendo de competência municipal o atendimento em creche, pré-escola e ensino fundamental.

Compreenda-se, ainda, que a Constituição Federal confere absoluta prioridade à educação enquanto direito fundamental da criança e do adolescente, não sendo possível alegar-se, em falha de sua prestação, a reserva do possível e a ausência de previsão orçamentária para explicar sua não efetividade.
Aliás, o Diário Oficial do Município de 28/06/2011 apresentou o balancete do primeiro semestre das contas da Prefeitura e mostrou que esta investiu R$ 17.061.562,30 entre janeiro e junho de 2011, dos quais R$ 6,4 milhões foram destinados para gastos com publicidade (cerca de 40% dos investimentos). A partir do exposto, resta clara a compreensão do que é essencial a esta gestão e, assim, afere-se a óbvia rejeição a alegações de incapacidade econômico-financeira para justificar a não-efetivação de direitos.

Pois bem, nos termos do TAC firmado: a) o levantamento deve ser feito antes de iniciar-se o período de matrícula geral do município; b) com aviso prévio de 10 (dez) dias aos moradores e ao Programa Lições de Cidadania (projeto de Extensão da UFRN que realiza atividade de educação popular em Direitos Humanos na comunidade) e divulgação ampla institucionalmente pela Secretaria Municipal de Educação e; c) 04 (quatro) ônibus escolares devem ser ofertados para garantir o transporte das crianças que estudam em regiões afastadas do Conjunto. Para o seu não cumprimento, a cada dia útil do semestre letivo incidirá uma multa diária de R$ 1.000,00.
Um primeiro levantamento, frustrado, ocorreu no início de janeiro e desobedeceu ao acordado, pois não houve aviso prévio aos moradores nem divulgação pela SME. Sem a comunidade saber a finalidade, data e o horário, bem como os documentos necessários, claramente os dados observados são inválidos e inconsistentes. Falha de planejamento da Secretaria.
Houve a reclamação à Promotoria e uma nova data foi marcada. A “comunicação institucional” foi, frise-se, o telefonema do Ministério Público aos moradores e aos membros do Lições de Cidadania informando a nova data agendada, 26/01/2012, manhã e tarde no CMEI Arnaldo Arsênio de Azevedo, localizado no Leningrado.
Nova violação ao TAC: 1 – encontra-se em andamento o período de matrículas do município e; 2 – Não houve divulgação institucional (a exemplo, carro de som). Como membro do Programa Lições de Cidadania, esta manhã fui ao CMEI para ver como estava se dando esta ação.
Iniciada às 08 horas, era 11 horas  quando conversei com a Chefe do setor responsável pelas matrículas da SME e indaguei quantas famílias haviam efetuado o levantamento: apenas uma mãe com duas crianças.

Sem carros de som, panfletos ou qualquer organização. Aborrecida com meus questionamentos, confessou que se dirigiu esta manhã ao Leningrado sem sequer saber o que deveria ser feito na comunidade. Disse que ligou às 08 horas e perguntou para o Secretário Walter Fonseca o que era pra ser feito ali.
Planejamento? Isto porque é uma comunidade que está cumprindo um TAC e pode sofrer multa diária e responsabilização pessoal pelo atraso ou ineficácia da ação. Perguntei se seria feita alguma divulgação ainda, porque os moradores não sabiam e o resultado, claramente, iria ser inconsistente.
Ao que me respondeu: Ligue pra Secretaria, procure o responsável. Claro, liguei. Para três telefones, inclusive. Mas nenhum destes contatos institucionais funciona. Todos desligados, sem pagamento. Gestão responsável?
Ressaltei que não era minha função fazer o trabalho da Secretaria. A profissional a quem me dirigi trabalha na instituição e é responsável pela implementação do levantamento e das matrículas, espera-se, portanto, que, como gestora pública, tome a atitude cabível para que tenha eficácia a realização de seu trabalho. Em resposta a minha fala, contudo, recebi, em tom de risível ignorância e pretensa superioridade: “Perdoarei você pelo erro de acreditar que eu tinha poder decisório”.
Surreal. Inacreditável ouvir aquilo. Incompetência sistêmica e institucional. Despreparo e ineficiência. Descaso. Não lhe perdoarei por não ter interesse em fazer um trabalho de qualidade e por prejudicar o acesso a educação das famílias do Leningrado – e estas, principalmente, não lhe perdoarão por mais este descaso do Poder Público: Porque o Conjunto Habitacional Leningrado não surgiu de mãos cruzadas.

“O mundo mudo não muda, grita Lenin! – LUTA”. Bandeira construída com as mãos dos moradores e integrantes do Programa Lições de Cidadania representando a palavra-central que caracteriza a comunidade: Luta.


FONTE: Blog do Centro Acadêmico Amaro Cavalcanti

http://amarocavalcanti.wordpress.com

10 x 0

6 maio

“[…]Em suma, estamos a lidar com um tipo de dissenso judicial que reflete o fato histórico de que  nada incomoda mais as pessoas do que a preferência sexual alheia, quando tal preferência já não corresponde ao padrão social da heterossexualidade.  É a perene postura de reação conservadora aos que, nos insondáveis domínios do afeto, soltam por inteiro as amarras desse navio chamado coração.[…]” (Trecho do voto do ministro relator Ayres Britto).

Na última quinta-feira (dia 5 de maio), o Brasil assistiu a um momento histórico: o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou parecer favorável ao reconhecimento de união estável entre casais homossexuais. A decisão decorreu da apreciação pela Corte da ADPF 132 (convertida, pelo ministro relator, em ADI) e ADI 4277, ajuizadas pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e pela Procuradoria-Geral da República, respectivamente.

A votação teve início na quarta-feira, dia 4 de maio, com a leitura do voto do ministro relator Carlos Ayres Britto que votou a favor de conceder interpretação conforme à Constituição ao art. 1.723 do Código Civil, de forma a excluir significados que impeçam o reconhecimento de união estável entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Uma vez que versa o citado artigo:

É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família.”

O ministro destacou que a atribuição de significado ao dispositivo em alusão deveria ser feita em conformidade com o o inciso IV, do artigo 3º, da Constituição Federal. pois não se é mais digno ou menos digno pelo fato de se ter nascido mulher, ou homem.”, destacou Ayres Britto em seu voto.

A ministra Carmem Lúcia seguiu o voto do ministro relator, assim como os ministros Luiz Fux, Joaquim Barbosa, Ellen Gracie, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello. Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Cezar Peluso, apesar de reconhecerem a procedência das ações, fizeram algumas restrições; o voto de Lewandowski, por exemplo, deixou dúvidas de ser pró ou contra até o fim (vi comentários de que era “o maior sim com mais cara de não”). O ministro Dias Toffoli se absteve de votar sob alegação de que pertencera à Procuradoria-Geral da República.

A partir da publicação da decisão da Suprema Corte no Diário Oficial, o parecer terá caráter vinculante sobre as futuras decisões dos tribunais de instâncias inferiores, de forma a uniformizar a jurisprudência. O posicionamento do STF estende, agora, aos casais homossexuais que mateem união estável comprovada os mesmo direitos garantidos às uniões entre casais heterossexuais.

Ao contrário do que muitos divulgaram, união estável NÃO é casamento civil; isso é pauta para outra discussão que não demora muito a ser travada, inclusive destacada pelo presidente do STF, Cezar Peluso, que é uma questão a ser levada a debate pelo Congresso Nacional. O fato, hoje, é que a sociedade brasileira amanheceu um passo mais próxima à civilidade. E não, Dr. José Cysneiros (advogado da CNBB), o nosso STF provou que pluralidade não tem limites!

Como disse Daniel Sarmento, em brilhante palestra ministrada durante o 9º Congresso Internacional de Direito Constitucional, não dá para ser igual pela metade. Ninguém sai perdendo por reconhecer aos homossexuais o direito a exercitarem seu direito à igualdade, à liberdade. E em brilhante conclusão, só corroborou minha opinião outrora exposta em outro texto que versava sobre a mesma temática: a preocupação com os direitos dos homossexuais não é exclusivo de quem é homossexual, mas de todas as pessoas que se preocupam com a liberdade!

Hoje, o Brasil amanhece um passo mais próximo de efetivar aquilo a que se propôs no texto do artigo 3º, inciso IV, da Constituição: promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Neste jogo, o placar hoje marca 10 liberdade x 0 preconceito!

REFERÊNCIAS:

http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=178931

http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1122953&tit=STF-decide-que-uniao-gay-estavel-tem-amparo-legal



O nome disso é SENSACIONALISMO!

12 abr

Desde a manhã da última quinta-feira (7 de abril), o “massacre do Realengo” foi – sem contestação – o assunto mais debatido e comentado pelos veículos de informação (ou não). Não há um só cidadão comum que tenha acesso a qualquer fonte de notícias que não tomou conhecimento e não se comoveu com o assassinato brutal de 12 crianças dentro de salas de aulas de escola pública no subúrbio do Rio de Janeiro.

A mídia brasileira não perdeu tempo! Poucos minutos após a ocorrência do tiroteio, os mais ágeis telejornais já davam em tempo real o passo-a-passo do que ocorria na escola e fora dela. E, em poucas horas, já se corria atrás da “verdade dos fatos”: o que houve, como aconteceu, quantos morreram, quem era o assassino? A razoabilidade do exercício do direito de informar estaria satisfeito aí… mas se tudo parasse por AÍ!

Não que meu manifesto através deste texto seja uma defesa à censura! Não, de forma alguma! Seria uma afronta à todas as vidas perdidas para que a Carta de 88 assegurasse que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;” (art. 5º, IX). Acrescendo-se o fato de que tentar fazer uma apologia à censura tornaria meu texto viciado por contrariar a proposta abraçada pelo Entrelinhas Jurídicas; uma proposta, inclusive, muito bem defendida desde o “nascimento” do blog no texto “LIBERTAS QUÆ SERA TAMEN“.

Se, então, reconheço a legalidade do que faz a mídia, este texto é — e só pode ser — fruto de motivação estritamente passional. Entendo que a sociedade como um todo merece estar informada sobre tudo que acontece, porém chega um ponto que me pergunto se realmente há relevância em determinadas notícias veiculadas em (tele)jornais, revistas, programas de TV e afins. Mas qual seria esse limite? Em que momento certos fatos abandonam o campo da fundamentalidade e passam a ser mero instrumento de sensacionalismo da mídia? Eles desconhecem esses limites ou simplesmente os ignoram em favor da audiência?

Se um caso vem a ganhar destaque na grande mídia, acabou a paz! Não basta que as vítimas e/ou familiares vivam a tragédia no momento do ocorrido. A história é revivida à exaustão na tela da TV, sem contar as dezenas de repórteres que — em demonstração de total falta de respeito aos sentimentos — perseguem os envolvidos em busca daquela entrevista exclusiva que certamente alavancará muitos pontos na audiência… Os jornais tomam para si os fatos e passam a trabalhá-los numa escala descendente que parece não ter fim, a desgraça alheia vira um verdadeiro roteiro de novela: a mídia cria a vítima, o vilão, recrutam coadjuvantes e ainda conseguem figurantes.

Parece-me que nossos jornalistas, há muito, deixaram de “aprender” a imparcialidade. A notícia dos fatos é apresentada em real ignorância ao princípio constitucional da presunção de inocência. Quantos condenados já foram produzidos pelo “tribunal do juri” da mídia? Quem duvidava da condenação do casal Nardoni, após o sensacionalismo que a mídia fez em cima do caso? E quem duvida que no dia que o ex-goleiro Bruno for a julgamento será condenado? Os direitos de terceiros não importam, é preciso “produzir” um bandido porque uma história completa é muito mais atraente para o público.

O maior símbolo disso é, sem sombra de dúvida, a capa da Revista Veja de 23 de abril de 2008 — edição 2057! Para quem não lembra, a citada revista trazia estampada em sua capa uma fotografia focada nos rostos de Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá, até então apenas acusados pela morte da menina Isabella Nardoni (frise-se que o fundo totalmente escuro da imagem deixa entrever apenas o olhar de Alexandre que, de passagem, se torna assustador). E, abaixo da imagem, o escrito em letras garrafais: “FORAM ELES”. O lamentável é que por inocente descuido escreveram em letras bem menores, imediatamente acima da frase anterior: “Para a polícia, não há mais dúvidas sobra a morte de Isabella:”. Descuido? Sim, se você acredita…

É triste ver o caminho que a imprensa televisiva brasileira toma nas últimas décadas. Cadê aquele jornalismo produtivo? É raríssimo! A mídia perdeu seu caráter produtivo, assumindo o patético perfil sensacionalista. E o pior de tudo isso é saber que a história só vai interessar enquanto gerar polêmica e der aundiência; depois de mastigada e vomitada para o público, o caso simplesmente cai no esquecimento. Ou quantos jornais por aí você ainda vê citarem o caso João Hélio, o caso Eloá?

Chega! Eu já cansei, meu senso (que não sei se posso chamá-lo bom) cansou de consumir tragédias agravadas pela mídia! Por acaso o “show da vida” pensa que em alguma coisa vai atenuar o sofrimento das famílias o programa “especialmente” dedicado a desmembrar toda a desgraça da escola do Realengo, principalmente quando não há mais nada a ser desmembrado? De que adianta um especialista em cada programa de TV tentando responder perguntas que morreram com o assassino? E qual é a contribuição dos apresentadores de programas policiais para a sociedade com seus discursos inflamados de que bandido bom é bandido morto? Sim, porque essa categoria de programa e seus apresentadores são os maiores parasitas já criados pelo jornalismo televisivo brasileiro. Quem melhor que eles para se valerem da pior forma possível de casos envolvendo violência?! Quanto mais violência, melhor; assim, seu discurso será mais agressivo, mais atraente porque ele se torna aos olhos do público o “justiceiro” que defende as vítimas da “bandidagem”. E o que me assusta é ver que esse discurso por mais tosco que seja, atrai muita gente, disseminando mais ainda aquela visão arcaica de que o Direito Penal “máximo” é a saída para todos os problemas.

Claro que ninguém é obrigado a corroborar com meu ponto de vista. Isso não passa de um mero desabafo de uma revolta desencadeada por mais não suportar ver o sofrimento alheio utilizado como ferramenta da mídia para elevar pontos no Ibope e revistas serem vendidas às custas do sangue de inocentes.