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Fatalista, não. Progressista!

29 set

Confesso, desde já, que, quando criança, achava que era fácil mudar o mundo. Não via grandes dificuldades em alimentar os famintos, cuidar dos pobres enfermos, abrigar os sem-teto. Só achava que isso era um problema de gente grande e que eu, na condição de criança, estava longe de resolver todas essas indigestas situações. Escutava minha mãe dizer que era culpa dos políticos e que, para eu não correr o risco de me tornar uma dessas sofridas pessoas, teria que estudar.

Cresci com essa ideia, e ela foi reiterada várias vezes durante as fases de minha vida. Era preciso estudar para não viver a realidade dos oprimidos, das principais vítimas do descaso político. Aprendi também, ao longo do tempo, que o tal capitalismo – modo de produção perfeito para cuidar da organização do mundo – também gerava, inevitavelmente, as desigualdades. Era a famigerada ideologia do Neoliberalismo. Ela desconstruiu em mim, facilmente, toda a esperança de construção de um mundo mais equânime. Era preciso aceitar a situação vigente, se acomodar diante dos fatos e lutar somente para a realização das conquistas individuais. Pois o mundo é “dos espertos”, é de quem têm mais. Você vale o tanto que você pode pagar. Em outras palavras: aqui, ser é ter.

Acomodei-me. O discurso é fácil e forte. Tratei logo de estudar. Absorvia mecanicamente tudo o que me repassavam na escola. Não questionava nada. Fui treinado para isso: as coisas eram assim, porque tinham de ser. Bastava que eu as aceitasse. Entrei na faculdade. Tratei de escolher um curso que pudesse me recompensar materialmente; escolhi o Direito. Admito que pensava muito pouco na questão do “fazer justiça”. Ora, como se nada do que já foi dito bastasse, fui logo advertido pelos próprios professores nos primeiros contatos com o curso: “Olhem, o Direito não vem para fazer justiça, mas para corroborar com os interesses da classe dominante”. E dessa forma nos é jogado. Talvez, esses mesmos professores sejam responsáveis por promover discursos pela paz. Incoerência tremenda, pois já disse alguma vez o sábio Paulo Freire: “A paz não precede a justiça”¹. Entendam paz não só como um termo que indica ausência de conflitos diretos. É a paz social, econômica, política. O direito precisa, pelo menos, buscar fazer equidade e não se sustentar em conceitos acomodatícios.

Ufa! Bendito seja Paulo Freire entre os oprimidos. Nem tudo está perdido. Antes de agradecê-lo, agradeço ao Lições de Cidadania – belíssimo programa de extensão da UFRN – que adota os pensamentos de Paulo para promover o ideal progressista. Voltei a pensar como criança, mas com postura de adulto que sabe que é preciso lutar para obter mudanças. Pois, pelo menos cá onde estou, a única coisa que cai do céu é chuva. Devemos problematizar o futuro, para que o sonho não seja negado de forma autoritária. Precisamos recusar discursos fatalistas e tomar posições de verdadeiros profetas que, segundo Paulo Freire, implica denunciar o presente e anunciar como poderíamos viver se lutarmos pelo revés da situação operante. Não tenha receio em ser idealista, utópico. Se disserem que – por adotarmos pensamentos progressistas – vivemos de brisa, responda como já me responderam: “Que bom, pois é a brisa que move e dá rumo ao veleiro”. Não aceite o fato de “que na vida a gente tem que entender que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri”².

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¹FREIRE, Paulo Reglis Neves, cf. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos, cit., p.60.

²Trecho da música Azul da Cor do Mar de Tim Maia, publicada em seu álbum auto-intitulado, 1970.

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