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Que dignidade é essa?

11 jan

Sempre tive lá minhas dúvidas se o capitalismo seria um sistema adequado para se conduzir o mundo. Porém, nunca fui a favor do comunismo. As regras devem, sim, existir. Elas resolvem impasses. Elas são o fruto maior da dinâmica humana em todas as suas esferas.

Mas, principalmente nos países subdesenvolvidos, em desenvolvimento, de economia emergente, ou como queiram denominar, é extremamente tênue a relação teoria/prática das leis (não vou nem por em xeque, aqui, o ordenamento jurídico). Esse excesso de positivismo jurídico acaba dando um tom de irrealidade às normas. E uma boa parte delas não chega sequer a ser aplicada.

E nós, “operadores” do direito (denominação com a qual nunca concordei, talvez por inexperiência), desde as salas de aula da universidade sempre ouvimos falar nisso. Assim como ouvimos repetidamente falar em dignidade da pessoa humana.

Onde quero chegar? Simples. Quero saber onde se esconde essa dignidade da pessoa humana no sistema capitalista. Que estado de dignidade é esse em que só valemos aquilo que temos?

Provo rapidinho como só valemos aquilo que temos: os moradores de rua são o que para a maioria das pessoas? Respondo também: nada. As autoridades olham pra eles? A justiça olha pra eles? Nós olhamos pra eles? Certamente, mas olhamos com um certo asco, parece até que eles não são gente como nós somos. Olhamos pra eles com medo de um assalto, com nojo pela falta de banho, com pena, muitas vezes, porque não é digno de ninguém se encontrar naquelas condições.

Quantos deles não morrem vítimas de agressão? Quantos deles não são brutalmente queimados? Há poucos dias, inclusive, um jornal local noticiou  que um morador de rua do bairro do Alecrim teve fogo ateado ao seu corpo enquanto dormia numa calçada, e que um comerciante era “forte suspeito”.

Por que isso acontece com os moradores de rua? Seria apenas uma mera coincidência o fato de eles não terem nada e serem tratados como ninguém? Receio que não.

Então volto agora a esse sistema capitalista (ou, como diria Agenor, que foi um dos meus professores de Geografia no ensino médio, “CAPETALISTA”). Ele não coopera com a dignidade da pessoa humana. Seria contraditório demais cooperar.

Atualmente, ninguém tem direito sequer a uma morte digna se não tiver dinheiro. Bichinho de estimação? Coisa pra rico. Só penso ser este um sistema auto-destrutivo. Há uma coisificação imensa do ser humano, não se “é” pela essência, mas pelo que se “possui”. Os serviços públicos, talvez os únicos a favor da maioria renegada desse Brasil, estão precários. Porque? Porque o Estado deve gastar pouco, agora os lucros dos empresários podem ser estratosféricos. O trabalhador pode perder direitos gradativamente, mas os lucros não podem ser perdidos.

Violência? A culpa é das drogas, do vício, dos traficantes, de quem não tem o que comer e deveria ser digno, mas rouba, mas se revolta e mata. Não sou a favor de banditismo nenhum, mas sou contra bandido grande: aquele que, aos poucos, foi “criando” milhares de outros bandidos. Sou, ainda, contra muitos aspectos desse sistema, que não é tão eficaz e conta com verdadeiras figuras que o fazem se tornar pior ainda.

Só queria saber quando, se é que esse dia ainda vai chegar, seremos valorizados por nossas capacidades, potencialidades e honestidade. Só queria saber quando vamos ter essa tão famosa dignidade. Só queria saber pra que tantos lucros, se tantos sofrem, se na esquina da sua casa alguém que não tem nada, pode tirar seu bem mais valioso: sua vida.

No mais, fica aqui um trecho de uma música da Plebe Rude, “Até quando esperar”, sucesso nos anos 1980:

Sei
Não é nossa culpa
Nascemos já com uma bênção
Mas isso não é desculpa
Pela má distribuição
Com tanta riqueza por aí, onde é que está
Cadê sua fração
Com tanta riqueza por aí, onde é que está
Cadê sua fração
Até quando esperar
A plebe ajoelhar
Até quando esperar
A plebe ajoelhar
Esperando a ajuda do divino Deus

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Não resisti e postei o vídeo dessa música. Vejam! Vale a pena!

 

 

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